Mestradinho #3 - Você provavelmente tem mais chance do que imagina

A primeira questão que as pessoas geralmente me perguntam quando se trata de estudar fora é "será que eu consigo passar?". Na minha experiência, a resposta é: "Não sei, mas você provavelmente tem bem mais chance do que imagina". Porque eu acho isso? Vamos por partes:

  1. Mestrado em outros países é enxergado de uma maneira diferente

No Brasil a ideia de mestrado já traz à tona uma formação profissional acadêmica. O mestrado é em muitos dos casos o meio do caminho pra um doutorado, um passo fundamental pra alguém que quer ser professor, seguir nessa carreira. Em outros países não é bem assim que funciona. Nos EUA, por exemplo, mestrado tem um foco muito mais profissional. Quem quer MESMO carreira acadêmica já pula direto da graduação pro doutorado.

Um exemplo bem específico: na minha primeira semana do mestrado eu não tive aula nenhuma. Foi uma semana inteira de preparação para a vida profissional. Teve um treinamento de duas horas sobre como usar o Linkedin. No departamento onde eu fiz mestrado - um dos 15 melhores do mundo na minha área - tem 3 pessoas trabalhando tempo integral pra ajudar os alunos a conseguirem uma colocação profissional. Não tô querendo dizer que é melhor ou pior que no Brasil - é simplesmente uma outra vibe.

Já conversei com muita gente que tem uma certa insegurança com isso. Eu sempre respondo a mesma coisa: eu não fiz TCC e passei em alguns dos melhores mestrados da minha área. Isso mesmo, TCC no meu curso era optativo. E eu não fiz. Porque? Honestamente - porque eu não tava a fim. Saco cheio da graduação, já. E o impacto disso nas minhas candidaturas foi insignificante. Porque? Porque eu tinha muitas outras coisas - projetos de extensão, monitoria, estágios, experiência de trabalho, iniciação científica, etc.

Não quer dizer que a sua trajetória acadêmica não importa. Importa, sim, e muito - é importante ter boas notas, demonstrar comprometimento com trabalhos, projetos, estágios, etc. Mas em muitos casos não tem nada a ver com a nossa ideia de mestrado - defender tese, fazer pesquisa, etc.

  1. Os critérios são extremamente diferentes

No Brasil passar num mestrado significa uma única coisa, geralmente: ir bem numa prova. Você faz uma prova com questões envolvendo mil conceitos, e aí os primeiros xis colocados estão dentro. Esse é um método adequado pra estrutura acadêmica que a gente tem no Brasil, mas em outros países é muito diferente.

A universidade no exterior geralmente está menos preocupada com aquilo que você consegue demonstrar que sabe, e mais preocupada com os seu percurso profissional e os seus objetivos de vida. O instrumento principal da seleção não é uma prova, e sim uma redação na qual você conta a sua história (chamado "statement of purpose").

Quem é você? De onde você vem? O que você fez com as oportunidades que apareceram na sua frente? De que maneira você lidou com as dificuldades que apareceram na sua frente? O que você quer fazer da vida? Porque você acha que esse curso é o lugar certo pra você? Essas são as perguntas que você tem que responder no processo. O corolário disso é que:

  1. Existe espaço pra muitas trajetórias diferentes

Existe um versículo da Bíblia que diz o seguinte: A quem muito foi dado, muito lhe será pedido (Lc 12, 48). A seleção de mestrado no exterior funciona mais ou menos assim. Eu conheço uma pessoa que reprovou TODAS as matérias de um semestre inteiro da faculdade. Impossível passar num mestrado, né?

Errado. Essa pessoa passou em 10 mestrados diferentes, inclusive Harvard. Porque? Porque essas muitas reprovações aconteceram por um motivo muito específivo - a mãe dessa pessoa foi detida pela imigração dos EUA e essa pessoa largou tudo pra ir ajudá-la, ir atrás de advogado, fazer crowdfunding, etc. Você provavelmente faria o mesmo, né? O pessoal da banca também.

Ou seja - uma média geral 9 apresentada por alguém que cresceu com três mordomos em casa em muitos casos vale menos que uma média geral 7 apresentada por alguém que sempre andou de ônibus, teve que ajudar a mãe a cuidar de três irmãos e trabalha desde os quinze anos. E faz sentido, não faz? A quem muito foi dado, muito mais lhe será pedido. Ou seja: não existe receita de bolo. Se você conseguir demonstrar que tem visão e comprometimento, já é mais de meio caminho andado.

  1. É muito mais comum fazer mestrado em áreas diferentes da graduação

Muita gente se sente insegura porque quer fazer mestrado em uma área um pouco diferente da área em que elas se graduaram. No Brasil isso pode ser difícil de acontecer, já que a prova do mestrado requer todo um conhecimento específico daquela área.

No exterior, em alguns casos específicos, pode chegar a ser o total oposto: muita gente enxerga o mestrado como uma oportunidade pra mudar de profissão. O que importa é contar aquela história que eu mencionei ali em cima. Porque essa mudança faz sentido pra você? Como você consegue argumentar que vai ser uma adição valiosa pra aquele departamento, e não um atraso de vida?

  1. Tendo dito isso...

Existem muitos tipos de mestrado diferente nos 200 países do mundo. Provavelmente existem casos em que o que eu falei acima não se aplica - se você não sabe a tabuada do 3, difícil imaginar que vão te aceitar num mestrado em engenharia civil. Mesma coisa se você passou a universidade inteira fumando maconha e passando na média e agora quer entrar em Princeton. Mas, na minha experiência, essas são as exceções.